Do pânico à "festinha" de uma convidada num salão de festas dominado por uma rainha hegemónica (crónica)

24 de junho de 2021

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Crónica por Benvindo Neves

De uns anos para cá entrou na moda, em Cabo Verde, a expressão “estar na moda”. O povo, este, na sua infinita sabedoria, sempre tratou de avisar que o que está na moda não incomoda.

Pronto, nada a dizer. Vou, por isso, embarcar nesta moda e dizer, também, que o andebol cabo-verdiano está na moda. Sim, pode não estar na moda nas nossas ilhas, mas, pelo menos, no continente, está, sim senhor!

Parece um paradoxo, mas certo é que a CAHB, Confederação Africana de Andebol, de repente começou a morrer de amores por este arquipélago. De tal forma que, em 2019, a entidade resolveu convidar a seleção nacional para marcar presença na copa africana de seleções de andebol sénior masculino, Tunísia 2020.

O convite, se calhar, num primeiro momento, terá assustado os responsáveis da modalidade em Cabo Verde. Mas, o País aceitou o desafio e a seleção, formada na sua grande maioria por jogadores a atuar em clubes estrangeiros, seguiu viagem para o Magrebe, à descoberta de um palco estranho.

E não é que a equipa nacional, não só honrou o convite como até tratou-se de mostrar os punhos!? Ah, pois! De previsível bombo da festa (rendêra), Cabo Verde partiu para um surpreendente quinto lugar, o que acabou por dar direito à qualificação direta para o Mundial do Egito 2021. Que Mundial de má memória, maldita covid-19!

Adiante… porque desta pandemia estamos todos fartos!

Em qualquer circunstância da vida, um convidado que provoca boa impressão no convidante tem grandes probabilidades de se tornar querido e, deste modo, voltar a ser chamado.

Foi o que aconteceu com Cabo Verde. A Dona CAHB impressionou-se com o comportamento do seu “delfim” na Tunísia e, um ano depois, já não convidou, foi mais longe e… intimou! Cabo Verde estava intimado pela entidade que gere o andebol africano a participar no CAN sénior feminino, Camarões 2021. Foi o próprio Nelson Martins, então presidente da Federação Cabo-verdiana de Andebol, a usar esta expressão numa entrevista à RCV. “Fomos intimados pela CAHB a participar”, disse o responsável na altura.

E como quem é “intimado” fica obrigado a comparecer sob pena de sofrer sanções, a Federação teve de acatar. Mesmo em tempo aziago, de ausência total de competições internas há quase dois anos. Ao contrário do que acontece em masculino, na classe feminina o leque de jogadoras selecionáveis a atuar fora (na Europa) é muito menos generoso. Daí que entre as convocadas tenha estado uma minoria de três atletas vindas todas de Portugal. 

A seleção teve de ser arranjada às pressas para poder estar presente na competição continental. Fazer desfeita à CAHB é que não ficava bonito, não é?

Um grupo de pré-convocadas na Praia (a maioria), outro em São Vicente, mais outro no Sal. Cada grupo foi sendo trabalhado por treinadores locais até chegar, nas últimas semanas antes da partida, uma treinadora de Portugal, Ana Seabra, com créditos firmados na modalidade. Mais internacional de sempre pela seleção portuguesa, antiga capitã e, mais tarde, selecionadora das camadas mais jovens do seu país.

Depois de dias de treino na Praia (com uma passagem pelo meio de três dias no Sal), fez a convocatória final e a equipa partiu para os Camarões. Novamente, à descoberta de um palco estranho. A mesma sina da seleção masculina, um ano antes!

Sorte madrasta… Cabo Verde ficou num grupo com Congo (uma das melhores seleções do continente) e Angola, esta sim, a melhor! Dito e repetido de forma categórica, a melhor! À uma equipa improvisada por força das circunstâncias tinha de calhar justamente a Angola! Resultado: as jogadoras, sem ritmo competitivo há quase dois anos, sem nenhum jogo sequer a feijões, viram-se de repente metidos num grande problema. De tal forma que entraram na quadra com as perninhas a tremer, ficaram em pânico. Foi a própria selecionadora a usar esta palavra no fim do jogo, que redundou numa vitória angolana por 25 golos de diferença: 39-14.

Eu, na altura, escrevi que já estava à espera do resultado. Houve quem não tivesse gostado. Mas, que eu estava à espera, lá isso não posso negar, em obediência àquilo que, a priori, me dizia meus botões. Não que estivesse a apoucar a capacidade das crioulas. Antes, por saber do poderio das angolanas. Basta um breve olhar aos números: Antes deste CAN, em 23 edições Angola tinha ganho 13, portanto, mais de metade. Em 14 finais tinha ganho 13, incluindo as duas últimas edições. De 1998 até 2012, conquistou oito edições consecutivas. Na final de 2016, só para enfatizar, batera a Tunísia, adversária bastante forte, por uns claros 36 – 17. Se as tunisinas, tão habituadas às finais e campeãs africanas por 3 vezes, perdem uma final com Angola por uma diferença de 19 golos… era de todo normal que eu esperasse um resultado ainda mais desnivelado entre a rainha africana da modalidade e uma novata que chega a esse palco por convite e sem qualquer rotina de competições há tanto tempo! Falta de ambição minha? Não, bom senso e pés no chão!

Só mais um dado em relação a seleção angolana (são muitos números, se continuar a expô-los este “jornal” nunca mais acaba): Há 22 anos (!) que Angola não sai do pódio nas competições africanas de andebol sénior. E ganharam mais esta edição, frente aos Camarões por 25:15. E agora somam três títulos seguidos. Não fosse a Tunísia a interromper o ciclo em 2014, na semana passada Angola estaria a conquistar o 11º campeonato africano de forma consecutiva. Pode!!!!

É óbvio que, tendo estes dados, e sabendo as circunstâncias em que a seleção nacional chegava ao CAN, eu não poderia ambicionar resultado diferente no jogo de estreia. E nem se colocava a hipótese de o pequeno David derrubar Golias num inesperado ato heroico. Não tínhamos funda para esse gigante! 

Tirando o susto inicial (o tal pânico), o combinado cabo-verdiano evoluiu ao longo da competição. No segundo jogo perdeu com o Congo por uma diferença de 14 golos (30 – 16), mas a meio da segunda parte as comandadas de Ana Seabra chegaram a encurtar o placar para “escassas” quatro bolas. 

Cabo Verde caiu, então, para o grupo dos que não conseguiram passar à próxima fase. A seleção nacional estava, finalmente, no seu campeonato. E, aí, reinou. Ganhou os dois jogos que fez. Derrotou Madagáscar, cavando um fosso de 14 golos (30:16). Ganhou, no derradeiro duelo, o Quénia, com 5 golos de diferença (27-22). E trouxe um troféu, a Taça Presidente, que premeia o primeiro dos últimos. Na classificação geral, com 12 equipas, a seleção cabo-verdiana ficou em 9º lugar.

Serve de consolo? Sim, sobretudo em tempos de covid-19! Devemos ambicionar muito mais? Claro, mas, para isso, o andebol tem de entrar, de facto, na moda aqui nas ilhas. Ainda não está! Quando entrar, vamos cobrar outros resultados. Mas, atenção: Angola vai continuar a ser Angola!



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