JOGO D’PALAVRA. Uma terça que valeu mais que 3 pontos. E com bar aberto no fim para toda a gente se embriagar, sem álcool

13 Junho de 2024

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Crónica de Benvindo Neves

Há um batuko d’Os Bulimundo, na voz do saudoso Zé Mário, e que a dada altura diz:  “Mim pa nhu pegan na dixida pa nhu largan na subida midjor dexan na nha kou”

Esta música está num dos albuns do mítico conjunto de Katchás e que, curiosamente, se intitula Ta N'Deria Ka Ta Kai. Voltaremos a este negrito na parte final deste artigo.

Pois bem, lembrei-me deste batuko quando ouvia o Cântico da Liberdade na pista do Estádio Nacional, no momento em que as seleções de Cabo Verde e da Líbia estavam perfiladas no centro do relvado. Não que estivesse a imaginar o Hino Nacional em forma de um batuko. Na verdade, ao olhar para o aspeto desolador das bancadas fiquei a pensar na onda de euforia e felicidade que tomou conta da Nação cabo-verdiana no inicio deste 2024. Uma oferta dos Tubarões Azuis vinda diretamente da Cote d’Ivoire. Na altura, eu não estava no país e, mesmo lá no distante Egito, chegavam estilhaços dessa contagiante euforia. 

A propósito, um parêntesis
(Em Cairo fui assistir ao jogo Cabo Verde x Egito numa esplanada juntamente com boa parte dos jogadores e staff da seleção nacional de andebol que estava a disputar o CAN nessa cidade. Já se passava das 22h00. Fazia um friozinho desagradável e nós, crioulos, todos ajoujados ali num cantinho recuado daquele amplo espaço anexo a um hotel. O Egito tinha iniciativa de jogo, os egípcios presentes naquele lugar estavam eufóricos, faziam barulho a cada jogada potencialmente perigosa que criavam. De repetente, Gilson Benchimol resolve arrancar aquele tal golo que dá vantagem para Cabo Verde já perto do intervalo. Nós, o grupinho todo de azul, saltámos que nem uma mola do nosso cantinho... goooooooooloooooooo! 
A malta da casa, surpreendida e incomodada, não gostou nada. Viraram-se todos para nós com umas caras tão feias como que a perguntar “mas quem são esses atrevidos? Bem, na segunda parte empataram, depois fizeram 2-1 e é facil imaginar a desforra da malta de vermelho e preto sobre nós. Só não imaginavam que Cabo Verde ia fazer o 2-2 ao cair do pano. O grupinho de azul “djodjód” ali num canto da esplanada desse hotel ficou atravessado na garganta dos faraós. Mas no fim... no stress, todos apurámos para os oitavos-de final, nós em primeiro, com 7 pntos, eles em segundo, com 3. Era só ver os seus sorrisos amarelos quando nos vinham felicitar pelo espetáculo que os Tubarões Azuis estavam a dar na CAN.)

Abri este longo parêntesis para ilustrar o poder de alcance que a façanha da Equipa Nacional ia tendo nesse janeiro abençoado. 

E já nem conto o episódio com aquele taxista durante um frete em Cairo. O gajo sabia cada informação sobre Cabo Verde! “Como você sabe? Ah pois, não são eles que há dois anos disputaram a final do CAN de andebol connosco? Não são eles que ainda ontem nos pregaram um grande susto lá na Cote d’Ivoire? Hoje em dia leio muito sobre Cabo Verde” – disse ao nosso guia que depois, incrédulo com o nível de conhecimento desse homem sobre Cabo Verde, nos veio traduzir do árabe para um português fluente com sotaque do Brasil.

Ora, em janeiro era mesmo assim! E nas lojas chinesas na Cidade da Praia camisolas e cachecóis dos Tubarões Azuis esgotaram-se antes do jogo dos quartos-de-final com a África do Sul. Negócios da China!

Passados escassos cinco meses, os Tubarões Azuis regressam a sua casa. É o primeiro jogo no Estádio Nacional depois da CAN da Cote d’Ivoire. Pelo meio, uma goleada sofrida três dias antes nos Camarões. 

A ocasião era propícia para se encher o Estádio Nacional logo na terça feira seguinte a esse sábado aziago. 

Em primeiro lugar, porque era a primeira oportunidade que muitos cabo-verdianos tinham para tributar, presencialmente, a sua seleção depois da melhor prestação de sempre na Copa Africana das Nações. Na primeira fase Cabo Verde ficou num grupo que tinha Egito e Gana, dois campeões africanos. Ficámos líderes desse grupo, os únicos com vitórias e sem derrotas. 7 pontos. Nos oitavos, vitória sobre Mauritânia e e empate nos 120 minutos com África do Sul. Fase mata-mata sem sofrer golos. Penaltis é outra história!

Em segundo lugar, porque essa mesma seleção tinha sofrido um profundo golpe três dias antes, nos Camarões. Era preciso conforto e mostrar que “estamos aqui” no momento da adversidade. Era preciso levar cajado para ajudar a equipa galgar a subida íngreme. Na descida é fácil, se a gasolina está na reserva, vamos sem se preocupar. O problema é estar com combustível na reserva na hora em que nos surge aquela rampa. O povo, na sua infinita sabedoria, bem sabe disso. Mesmo aqueles que não têm carta de condução. Os Bulimundo levaram essa sabedoria popular para o tal batuco de que tinha feito referência no início: Mim Pa Nhu Pegan Na Dixida Pa Nhu Largan Na Subida Midjor Dexan Na Nha Kou

Concordando em pleno com aquilo que na véspera do jogo defendeu o colega Marcos Fonseca no Opinião Pública da Rádio de Cabo Verde, era o momento ideal para o famoso QUEM-DE-DIREITO dar o sinal e conceder tolerância de ponto na ilha de Santiago para que se pudesse encher o estádio. É verdade que não se deve banalizar a questão da Tolerância de Ponto. Mas neste caso, todo o contexto por detrás justificaria. Os Tubarões, que já são crescidinhos, entenderiam muito bem o alcance da mensagem. E de certeza que não teríamos aquele aspeto despido nas bancadas quando se entoava o Cântico da Liberdade. Mais tarde, a bancada central coberta ficou bonita. Mas o resto... desolador!
A Seleção Nacional ganhou. Fez mais 3 pontos, chegou aos 7. Alcançou a Líbia. Ficou a 1 ponto do líder Camarões e ultrapassou Angola, que empatou em casa com os malvados dos Leões Indomáveis.

Feliz, muito feliz, foi a ideia de se permitir que no fim do jogo no Estádio Nacional jogadores, adeptos, comunicação social... todos pudessem estar juntos sem quaisquer restrições. Os jornalistas entrevistaram quem quiseram. Havia mon fadjadu para tudo: entrevistas, selfies com adeptos, abraços, beijinhos, enfim! Todos felizes, todos embriagados com o “bar aberto”. 

Momentos assim contribuem para reforçar aquela máxima popular típica de Santiago e que dá nome ao álbum d’Os Bulimundo Ta N'Deria Ka Ta Kai, de 1997. A Seleção Nacional deu uma topada em Yaoundé, mas não caiu, não cai. 

E já que hoje tenho a boca n’Os Bulimundo “Mim Pa Nhu Pegan Na Dixida Pa Nhu Largan Na Subida Midjor Dexan Na Nha Kou”.

Forti n gosta di kel batuco li!

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