JOG D’PALAVRA. O Monte Vaca e a instável fortaleza do tubarão

17 Outubro de 2024

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Crónica de Benvindo Neves

Em dez anos, quadro selecionadores já estiveram com os Tubarões Azuis no Estádio Nacional. Só um deles conseguiu fazer do "Shark Arena" uma verdadeira fortaleza.

Há menos de dois meses completaram-se 10 anos que o Estádio Nacional foi inaugurado. Estava-se em 2014 e, nessa tarde/noite do dia 23 de agosto, houve um pouco de tudo na cerimónia que marcava a inauguração da então – e até agora - maior infraestrutura desportiva do país.

Entre as muitas atividades, recordo-me de ter havido entoação do Hino Nacional, parada militar, discursos de políticos e de um embaixador, demonstrações de escolas de iniciação desportiva e desfile de tabanka. Também levou-se para o relvado uns cheirinhos da cultura e do desporto chineses, com dança do leão e demonstração de artes marciais oriundos do gigante do Oriente, que financiou a construção do estádio.

Ah, e para afastar os famosos maus olhados que, acredita-se, gostam de implicar com o povo das ilhas, não podia faltar a indispensável bênção do bispo de Santiago, Don Arlindo Furtado.
Estádio abençoado, já se podia jogar. E coube às senhoras “tirar a peçonha” do sintético. Um jogo de futebol feminino entre os mistos de Barlavento e de Sotavento marcou a inauguração oficial do relvado.

O primeiro jogo da seleção nacional na sua nova casa só aconteceria um mês depois, a 10 de setembro. O adversário foi a Zâmbia. O selecionador era Rui Águas. Cabo Verde ganhou 2-1. O ponta-de-lança foguense, Zé Luís, ficou na história ao marcar o primeiro golo de sempre dos Tubarões Azuis no Estádio Nacional.

Esse triunfo sobre os campeões africanos de 2012 marcaria o início de um ciclo demolidor da seleção nacional na sua nova fortaleza, sob o comando de Rui Águas. Em 14 meses, os Tubarões Azuis fizeram cinco jogos em casa e ganharam-nos todos. Marcaram 15 golos, sofreram 3.

De setembro de 2014 até novembro de 2015 a Equipa Nacional erigiu uma grande fortaleza pelos lados do Monte Vaca. Nem Zâmbia (2-1), nem Moçambique (1-0), nem Níger (3-1), nem São Tomé e Príncipe (7-1), nem Quénia (2-0) conseguiram sair ilesos das águas territoriais do tubarão destas ilhas. 
As bancadas do Estádio Nacional estavam abarrotadas a cada jogo. Parecia que já ninguém tinha saudades daquela “tapadinha” da baixa praiense - o velhinho Estádio da Várzea - que durante décadas havia servido a seleção nacional com aquela estoicidade e abnegação próprias de quem, não tendo muitos recursos para oferecer, capricha na boa vontade.

Rui Águas deixa a seleção em janeiro de 2016 e, com ele, parece ter levado os escudos e os canhões que mantinham inabaláveis os muros da fortaleza construída pelos chineses, em 2014 . 
Felisberto Cardoso “Beto” sucede ao treinador português no comando técnico da seleção cabo-verdiana. E não consegue manter a invencibilidade no Estádio Nacional. Pelo contrário, os Tubarões Azuis iniciam um ciclo terrível de desaires caseiros. Num espaço de 8 meses, entre março e novembro de 2016, Cabo Verde faz 3 jogos em casa… e perde-os todos!

Marrocos foi quem deu início à maldição. Os “leões do Atlas” vieram do Magrebe e tomaram de assalto a nossa fortaleza. Vitória por 1-0, golo de penalty. De regresso ao norte de África, os marroquinos transmitiram o segredo aos líbios. Em setembro, os “cavaleiros do Mediterrâneo” chegaram ao Monte Vaca, viram e venceram,1-0! Dois meses depois, em novembro, à terceira seria mais uma vez! Burquina Faso entrou no Estádio Nacional e… pumba! Tinham-se passado apenas 3 minutos após o apito inicial e a bola já estava no fundo da baliza de Vozinha. E marcariam mais 1, vencendo por 2-0. 
2016 acabaria por ser o annus horribilis para os Tubarões Azuis em suas águas. A seleção perdeu todos os três jogos que havia feito no Estádio Nacional e, pior, não marcou qualquer golo (!), sofreu 4.

O professor Beto não resistiu. Para o seu lugar veio Lúcio Antunes. O bom filho a casa tornou. Ele tinha sido o grande obreiro da primeira qualificação e subsequente excelente prestação de Cabo Verde na CAN 2013, na África do Sul.

O primeiro jogo de Lúcio em casa é com Uganda, em junho de 2017, a contar para a 1ª jornada de apuramento para CAN 2019. Caramba, e não é que os ugandeses vêm cá  ganhar por 1-0!!! Agora são 4 jogos consecutivos sempre a perder e sem marcar na nossa (outrora) fortaleza. A descrença já havia tomado conta dos adeptos e começam a fugir de Monte Vaca. Por essa altura, o Estádio Nacional já pedia uma nova bênção de Don Arlindo, tal como havia feito no dia da sua inauguração.

Não foi preciso tal pedido a Nhô Bispo porque, passados três meses, em setembro, os Tubarões Azuis mataram o borrego. Venceram África do Sul por 2-1 e afastaram o fantasma dos desaires consecutivos em casa. A quebra do enguiço, seria, entretanto, temporária. Em outubro do mesmo ano de 2017, veio cá o Senegal. Em jogo estava o apuramento para o Mundial da Rússia. Duelo intenso e equilibrado entre tubarões e leões. E assim foi até aos 80 minutos. Nos instantes finais tudo ruiu, Cabo Verde perdeu por 2-0. Estava desfeito o sonho da presença no Mundial 2018. Seria o último jogo de Lúcio Antunes no Estádio Nacional nessa sua segunda passagem pela seleção de Cabo Verde.

Rui Águas regressou - tal como havia feito Lúcio - dando mais força ao ditado “o bom filho a casa torna”. Porém, ao contrário daquilo que havia acontecido na sua primeira passagem pela Equipa Nacional, desta vez não teve um registo 100% vitorioso. Também não perdeu. Entre outubro de 2018 e novembro de 2019 fez três jogos no EN, somou uma vitória (3-0 sobre Tanzânia) e consentiu dois empates (0-0 com Lesoto e 2-2 com Moçambique).

Rui Águas foi-se embora. O ano de 2020 entrou e, como ele, um novo selecionador nacional. Pedro Brito “Bubista”, antigo adjunto de Lúcio Antunes e com quem formou dupla na CAN 2013, assumiu o desafio de ser o líder máximo dos Tubarões Azuis. De outubro de 2020 até setembro de 2024 a seleção fez 7 jogos no Estádio Nacional. Ganhou 4, empatou 3. Bubista estava a ombrear com Rui Águas que, nas duas passagens pelo comando técnico do combinado de Cabo Verde, não perdeu um único jogo. 
Esta quinta-feira, 10 de outubro, caiu o muro. Os Tubarões Azuis sucumbiram diante do Botswana, o adversário menos cotado de todos aqueles que já vieram ganhar no Estádio Nacional. E assim desfaz-se mais uma marca do atual selecionador nacional. Se no mês passado viu desmoronar a proeza de nunca ter perdido dois jogos seguidos fora de casa, agora vê esfumar-se a invencibilidade pelos lados de Monte Vaca.

Nos 10 anos da sua existência o Estádio Nacional já recebeu 22 jogos dos Tubarões Azuis. Olhando para os selecionadores nacionais, Rui Águas e Bubista contabilizam 8 partidas, cada. Felizberto Cardoso “Beto” disputou 3 e Lúcio Antunes igualmente 3. Só Rui Águas não perdeu nesse estádio que inaugurou e transformou em sua fortaleza, com seis vitórias e 2 empates. Beto é o único que não conseguiu uma vitória, nem sequer um empate.

Nesses 22 duelos, Cabo Verde venceu metade deles, 11. A outra metade distribui-se por 5 empates e 6 derrotas. Os carrascos do tubarão no seu habitat são Marrocos, Líbia, Burquina Faso, Uganda Senegal e agora… Botswana!

Começou por ser uma fortaleza instransponível. Volvidos 10 anos, o Estádio Nacional está longe de ser aquele inferno temido pelos adversários. Mas, também, há que dizê-lo, nenhum adversário teme um estádio despido de adeptos. Afinal, quem os torna infernos são os “diabos” que povoam as suas bancadas. E nos últimos anos, qualquer jogo no Estádio Nacional faz-nos lembrar os tristes tempos da pandemia da covid-19 em que se definia um número limitado de acessos aos espaços públicos. 
O que explica, nos últimos anos, essa ausência gritante de adeptos nas bancadas do Estádio Nacional? Bem, agora nos jogos em dias de semana, a Dona CAF e a Madame FIFA marcam os pontapés de saída quase sempre para o meio da tarde. Isso tem influência? Certamente! Mas, não carregará toda a culpa. 
 

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