JOG D’PALAVRA. O Boavista que já faz "esquecer" o Campeão de 2010. A quebra de um incómodo enguiço e as palavras de Edvaldo e Xand

31 Maio de 2024

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Crónica de Benvindo Neves

O Boavista da Praia chegou ao Campeonato Nacional de Futebol com muita fome e sede. Os axadrezados tinham tanta sede que quando alcançaram o pote esvaziaram-no todo. Contrariamente àquela música do Princezito que diz "el dexan ku poti ti na boka d´agu ninguem ka soti kaneka", os campeões de Santiago Sul fizeram o contrário. Es atxa poti ti na boka d´agu es soti kaneka bai ti fundu.

Os números confirmam. O Boavista foi a única equipa a ganhar todos os jogos até agora. Marcou, pelo menos, 2 golos em cada partida. Tem o melhor ataque com 10 golos e a melhor defesa com apenas um golo sofrido. É a única equipa já com presença garantida nas meias-finais.
Este desempenho - e inda faltam duas jornadas para o fim da fase de grupos - já supera os números do último Boavista campeão nacional, em 2010. Na altura, a primeira fase do campeonato tinha dois grupos de seis equipas, cada. A fase de grupos era disputada a uma volta, cada equipa realizava cinco jogos.

Em 2010, ao fim de quatro jornadas o Boavista  somava apenas 7 pontos. E das quatro partidas, três tinham sido em casa, de forma consecutiva. A equipa havia começado com um empate na Brava, 1-1 com Morabeza. Depois, recebeu o Botafogo e ganhou 4-2. Na terceira jornada, novamente no estádio da Várzea, os axadrezados foram surpreendidos pelo Marítimo de Santo Antão Sul, que venceu por 4-3. Na quarta ronda, para fechar o ciclo de três jogos caseiros, o Boavista teve, por ironia, mais uma equipa de Santo Antão.

O Solpontense é que pagou o pato pela humilhação que a turma de xadrez havia sofrido na sua própria casa uma semana antes diante dos portonovenses. E aplicaram 7-1 à turma de Santo Antão Norte.  
Ironia das ironias, na última jornada da fase de grupos seria o mesmo Solpontense a “oferecer” aos seus algozes a passagem às meias-finais. O Boavista foi a São Vicente empatar 1-1 com Batuque e isso deixava tudo mais facilitado para o Marítimo que defrontava o Solpontense, último classificado do grupo sem qualquer vitória.  Os amarelos e negros da Ponta do Sol venceram Marítimo por 2-0 no estádio João Serra. Vica, na altura um “menino”, foi quem tramou os verde-rubros de Porto Novo, com um bis. O jogo no Adérito Sena terminou primeiro. Os axadrezados estavam desanimados com o empate. A vitória do Solpontense devolveu-lhes a alegria. O Boavista viria a contratar o “heroizinho” da Ponta do Sol e ele ficou anos a fio ao serviço dos axadrezados, até emigrar recentemente.

Com os mesmos 8 pontos do Marítimo, o Boavista lá seguiu para as mais-finais fruto do melhor goal avarege. Os tais aplicados ao Solpontense na penúltima jornada inflacionaram a coisa. Nas meias-finais, os axadrezados viriam a eliminar o Académico do Sal com dois empates (0-0 / 1-1) e  conquistaram o título às custas do Sporting da Praia com um agregado de 3-0 na final a duas mãos.

Já se passaram 14 anos! Desde 2010 nunca mais o Boavista conseguiu ser campeão nacional e agora os seus adeptos acreditam que des bez ke bez.

A crença da afición ligada aos axedrezados assenta em alguns argumentos que eles consideram fortes. Entre os argumentos está, por exemplo, a campanha extraordinária que a equipa fez no campeonato regional (56 pontos, 53 golos marcados, 6 sofridos, 10 pontos sobre o 2º classificado); a demonstração de força que a equipa vai fazendo, também, na fase de grupos do campeonato nacional e, ainda, o facto de a equipa ter já acabado com um fardo que já vinha atormentando Santiago Sul desde 2019.

É verdade, mesmo não tendo ainda ganho nada, o Boavista está, com a dinâmica de vitória, a devolver o orgulho à maior região desportiva do país no campeonato nacional.  É preciso recuarmos até 2018 para encontrarmos uma presença de um representante de Santiago Sul nas meias-finais do Nacional. Foi aquando do último título nacional conquistado pela Académica, com Lito Aguiar no comando.  De lá para cá, ninguém passou a fase de grupos. Nem Académica da Praia e Celtic em 2019, nem Sporting em 2022, nem os Travadores em 2023. É algo nunca dantes visto e isto, convenhamos, para os amantes do futebol em Santiago Sul, é um embaraço, um fardo bastante pesado. Ainda para mais quando sabem que em todos esses anos o grande rival São Vicente foi tendo sempre equipas nas finais, conquistando duas de três.


O quiproquo de Edvaldo e Xand
Já que neste jogo d’Palavra falamos do Boavista, não resisto em olhar para o jogo de boca entre o treinador dos axadrezados, Edvaldo Cardoso, e da Ultramarina, Xand Ramos, no fim da partida do domingo passado.

O treinador são-nicolauense não gostou nada de ter visto o seu adversário de Santiago Sul ir ter com a equipa de arbitragem logo quando terminou a primeira parte. Na altura o jogo estava empatado a zero. Xand considerou que Edvaldo ameaçou o árbitro e este ficou condicionado para a segunda parte. “Isto não pode acontecer”, reclamou o técnico.
Confrontado pelos jornalistas, o treinador do Boavista fez questão de explicar aquilo que disse ao árbitro “sem acrescentar, sem tirar nenhum i”. E reproduziu aquilo que teria dito ao juiz de São Vicente: "odja, n ka sa flou kuse k n tem gana fla pamod n ka termina jogu. Ma si kontinua asi, na fim fim di jogo, n ta flou na ka ta bem próximo jogo". Oh Edvaldo, mas o que é isso senão uma forma de tentar condicionar o árbitro, quando o jogo ainda vai a meio e com o resultado 0-0?

A Ultramarina pouco ou nada fez para contrariar o resultado, tens razão. Também não me parece que o árbitro tenha tido qualquer influência no 3-0 construído na segunda parte.
Mas havia necessidade de o treinador do Boavista ir fazer aquilo? Se é que alguma vez seja necessário!  

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