JOG D’PALAVRA. Nacional Futebol: a Lucidez de Pepa Ramos e outros factos da 1ª jornada

08 Maio de 2024

A+ A-

Crónica de Benvindo Neves

O campeonato nacional de futebol deste ano começou de forma bastante animada, pondo fim a uma magreza de golos que já vinha desde 2017. De facto, nos últimos anos a primeira jornada da competição foi sendo marcada por um confrangedor divórcio com o fundo das balizas, sobretudo nos três anos imediatamente anteriores à pandemia da Covid-19.

Em 2017, por exemplo, a primeira jornada só rendeu 8 golos. No ano seguinte, ainda se tentou melhorar a crise, mas o certo é que a ronda inaugural do campeonato de 2018 não foi além de uns míseros 5 tentos. Pior ainda seria a competição de 2019, com o arranque a ficar marcado por uns miseráveis 4 (!) golos. 

Veio a tal maldita pandemia que mandou parar tudo durante dois anos. 2020 e 2021 nem tiveram BOLAS!

Depois da pandemia, talvez por causa de toda a euforia da retoma, a eficácia melhorou bastante. Em 2022 já se marcaram 13 golos a abrir o Nacional. E, no ano passado, os índices de eficácia continuaram a subir, tendo alcançado os 16 golos. Ótimo! Agora, o arranque na semana passada de mais uma edição confirmou a evolução pelo terceiro ano consecutivo, chegaram-se aos 17 golos. 

É preciso recuarmos oito anos para encontrarmos melhor score. Se em 2016 tinham-se marcado 21 golos na jornada inaugural... desta vez, não chegou a tanto. Ainda assim 17 é um número muito bom, que dá uma média de 3.25 por jogo.

Será que a pontaria vai continuar assim tão afinada? É bem provável, até porque esta edição está cheia de goleadores sendo que dos 11 melhores marcadores dos campeonatos regionais, 9 transitaram para o Nacional. 

É certo que destes só Ban do Académico, que bisou, e Evandro “Vá Preta”, do Varandinha, acertaram com as redes adversárias na primeira jornada. Vá Preta, que traz 16 golos do regional de Santiago Norte, marcou 1.

Mas ainda há muitos jogos pela frente e decerto vamos poder ver um despique interessante no mini campeonato dos artilheiros a ver quem sucede a Tchukin, ex. Académica do Mindelo, que reinou nas duas últimas edições. O salense Ban, que fez 9 golos no regional, já se tratou de marcar posição neste nacional. E já tem um bis. Tal como fez Tony, da Académica do Fogo. Pode dizer-se então que se registou um “bis-ao-quadrado” na primeira jornada. Tive de escrever assim para não dizer que se viu um “bi-bis” no grupo A. Dito assim até ficava melhor, mas, já se sabe é essa coisa das mentes, pá!

Os outros goleadores dos regionais ficaram em branco. Entre eles está Sunday, o matador-mor dos regionais desta temporada. Ele marcou 22 golos em Santiago Sul. Na primeira jornada até poderia ter marcado, mas precisava de uma baliza bem maior quando num lance bem dentro da área e bem enquadrado, atirou ao lado. Naquele momento foi um infeliz Sunday num Saturday.

Os olhos trocados de Calú e Bujon

Os golos são sempre o climax dos jogos de futebol. E quem os marca fica na lua, desde que não acerte na baliza errada. Porque, nesses casos, em vez de festejar, cora-se de vergonha. Por isso, quase sempre se leva as mãos à cabeça ou à face pa esconder o mico. 

Calu, do Derby, e Bujon, do Varandinha, começaram este campeonato de olhos trocados. Ambos marcaram nas suas próprias balizas e com cabeças bastante bizarras.

No caso de Calu então, não deixa de ser irónico. No campeonato da época passada o jogador, na altura ao serviço do Mindelense, tinha sido muito feliz na cidade da Praia. Marcou o golo que deu a vitória à sua equipa sobre os Travadores.

Desta vez, Calu não teve os pés para aquele livre direto que havia cobrado superiormente no Estádio Nacional e nem teve cabeça para evitar aquele autogolo logo no primeiro minuto do jogo entre Boavista e Derby. Dificilmente, este golo na própria baliza deixará de ser o mais rápido deste campeonato nacional.

A lucidez de Pepa Ramos

Este Jogo d’Palavra, já sabe, dá sempre palavra também ao fair play. O Campeonato Nacional de Futebol 23/24 começou bonito! Sem muitas queixinhas, nem grandes reclamações em torno das arbitragens. E até teve palavras e gestos muito bonitos.

Os treinadores Ney Locô, do Morabeza, e Tchober Levi, do Varandinha, deram uma lição ao mundo do futebol quando em entrevista conjunta à RCV/TCV desfizeram-se em elogios mútuos, mostrando tanta admiração pelo caráter de um e de outros. E já se assumem como grandes amigos, eles que se conheceram durante o Nacional do ano passado 

Foi bonito o que se viu na Brava, sem dúvida. Mas, especialmente, quero destacar a atitude de Pepa Ramos, treinador do Derby. Então o rapaz perde com o Boavista, da forma como perdeu e, no momento de falar à Comunicação Social a primeira coisa que faz questão de destacar é a forma como a caravana azul e branca foi acolhida pelos dirigentes dos axadrezados: “Primerament, antes de falá de jog um kris falá de ekipa de Boavista i de sês dirijentes. Es dá nos um resesão xpetakle, ospitalidade xpetacle, tud te dret graças a Deus, es tratá nôs prop dret! No tava gostá de retribuís isso la ne Mindelo kond es bá

Foi de facto um grande momento de lucidez e seriedade de um jovem treinador que já nos habitou com a sua postura muito assertiva quando aborda os jogos. (só o conheço pelo que vou ouvindo e vendo da boca dele, à distância). 

Fazer este elogio público, sem ser perguntado, depois de uma derrota com uma equipa da região rival, aliás, de duas regiões com um histórico de tensão e algumas escaramuças entre elas nos duelos a envolver seus representantes… isso só está ao alcance de grandes desportistas, pouco dados a arranjar desculpinhas nos outros para justificarem seus fracassos. 

Fair-play é bonito e acho que, lá no fundo (quase) todos gostam.

Ao longo dos anos tem sido tradição haver relatos de casos esporádicos de alegado má tratamento das caravanas por parte das equipas adversárias. Com este elogio público de Pepa, é claro que o Boavista também ganha pontos.

Clique aqui para ver a versão vídeo deste Jogo d´Palavra

Pode Interessar