JOG D’PALAVRA. Cinco, quinze, vinte e um! E no meio da equação, nove em três. Complicado? Ah pois, desta vez o jogo é delas

23 Setembro de 2023

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Por Benvindo Neves

Estava-se em 2018. Quatro anos se tinham passado desde a inauguração do Estádio Nacional. O calendário levava 16 dias parado no mês de novembro. O estádio abria suas portas para receber uma partida da seleção nacional feminina de futebol. Primeiro jogo de sempre, um amigável com o combinado da Guiné Bissau. Habituados todos, até então, só com os Tubarões Azuis, houve quem tivesse na altura falado em “tubaroas”, igualmente azuis. O nickname não pegou, obviamente! As meninas orientadas por Silvéria Nédio perderam 0-1. Azarada estreia, com Cabo Verde a desperdiçar um penalti logo nos instantes iniciais.

(Fim do flashback) Cinco anos depois…

2023! Setembro está na reta final. O mês vai deixar saudades, pela certa! Se queres engodar o cabo-verdiano, dá-lhe chuva. Ka mesti verguinha nem saco de cimento. Nada disso, "apenas" chuva! E é o que este setembro tem feito.

É sexta-feira. O dia, na cidade da Praia, começa com uma chuvada. Mas foi fugaz, ainda bem! Afinal, à tarde há jogo no Estádio Nacional. Jogo da seleção feminina de futebol. E à chuva é que não dá! Dizer "não dá" soa  à heresia. Ok, mas não estamos nada habituados. Jogar à chuva por aqui não, please!

Depois daquela tarde de 16 de novembro de 2018, o Estádio Nacional teve de esperar 5 anos  (na verdade 4 anos e 10 meses) para voltar a abrir-se para a seleção cabo-verdiana de futebol feminino. Entretanto, de lá até janeiro deste ano a Equipa Nacional viria a fazer mais 13 jogos: um em Bissau (amigável 2019); 5 na Serra Leoa (Torneio UFOA-A, 2020); dois no Senegal (particulares com a seleção local, 2021); um no Luxemburgo (amigável com o combinado local, 2022) e 4 na ilha do Sal (Torneio UFOA 2023).

O regresso da seleção feminina ao Estádio Nacional vinha carregado de simbolismo. Retorno à  casa onde tudo começou. É a equipa à procura do primeiro golo de sempre nesse campo. Jogo histórico! Pela primeira vez Cabo Verde entra para as eliminatórias que qualificação para a Copa Africana das Nações. Duelo com a Libéria, reencontro com uma adversária que há 3 anos tinha derrotado as crioulas e impedido que elas trouxessem da Serra Leoa a medalha de bronze do Torneio UFOA. 
O momento é, pois, para ajuste de contas. As senhoras comandas pela dupla Nita/Gust entraram determinadas. E dominadoras! Ivânia Moreira “Vá” destacou-se, mais uma vez! Marcou a abrir e a fechar o marcador. Pelo meio fez o 2-0 a Evy Pereira, moça do bairro de Eugénio Lima, Praia, e que joga há alguns anos em Portugal.

Evy encheu o campo! Marcou, deu a marcar, ficou perto de voltar a marcar, foi o motor da equipa. A melhor em campo!  Mas, falemos da Vá. 
Seu nome de batismo é Ivânia Moreira. Natural da pacata comunidade piscatória de Achada Ponta, Santa Cruz, é na cidade da Praia, no Seven Stars, que acaba por dar mais nas vistas com números absurdos de golos nas provas regionais. Há alguns meses, em junho de 2023, consegue uma transferência para Portugal e vai jogar no Racing Power, da 2ª divisão. E lá encontra a compatriota… Evy.

Até janeiro deste ano, Vá não tinha qualquer golo por Cabo Verde. Mas, em escassos 9 meses a
menina de Txada Ponta transforma-se num caso sério na Seleção Nacional. Durante este período fez cinco jogos, marcou em três deles. Marcou 9 golos! Cinco diante da Mauritânia, dois contra a Guiné Bissau e, agora, outros dois frente a Libéria. É, de longe, a melhor marcadora de sempre da Seleção. A segunda melhor, a foguense Irlanda Lopes, está a seis tentos dela.

Vejo que este jogo já descambou para números. Fechemo-lo, já agora, com outros.
Em 5 anos de existência, Cabo Verde já fez 15 jogos, sendo 5 amigáveis e 10 para competições em África. Ganhou 6, perdeu 8, empatou 1. Marcou 21 golos (quase metade, 9, assinados pela Vá). Os outros 12 dividem-se por 9 jogadoras: Irlanda (3), Evy (2), e os restantes com 1 golo: Jocilene, Joseane, Sasha, Diana Borges, Varsénia, Grampola e Wendy, esta última entrou para a história como autora do primeiro golo de sempre a seleção nacional feminina de futebol.

Vai um replay? Cinco (anos da seleção), quinze (jogos) vinte e um (golos)! E no meio da equação, nove (golos da Vá) em três (jogos).  

Já esta terça feira, 26, há novo embate com a Libéria, desta vez em Monróvia. Cabo Verde tem tudo para passar a eliminatória e seguir para a próxima. Essa, sim, vai ser a doer porque, se tudo correr dentro do esperado, a seleção nacional vai ter pela frente as Super Águias da… Nigéria. 
Vá, golos é contigo!

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