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Rota da Seda, Um Cinturão e uma Rota e Cooperação Global entre os Media: O Fio da Meada


29 Set 2017 Internacional

Qual o fio condutor entre a Rota da Seda, a Iniciativa “Um Cinturão e uma Rota” e a Cooperação entre os media?

Aconteceu na semana passada na cidade de Dunhuang, na província chinesa de Gansu, no noroeste da China, o IV Fórum de Cooperação de Meios de Comunicação Social sobre a iniciativa do governo chinês “Um Cinturão e Uma Rota”.

O evento foi organizado pelo jornal chinês Diário do Povo (People’s Daily), e contou com a participação de cerca de 300 representantes de 265 meios de comunicação social, provenientes de 126 países. Estiveram ainda no fórum Think Thanks representativos de organizações internacionais, como o FMI.

O propósito do fórum é divulgar e analisar os impactos da multimilionária iniciativa do Presidente Chinês Xi Jinping “One Belt, One Road” – Um Cinturão e Uma Rota. A iniciativa pretende ser uma espécie de uma moderna rota da seda. Um plano para desenvolver infraestruturas em mais de 60 países da Ásia, Europa e África, de forma a potenciar trocas comerciais entre os continentes e projetar o desenvolvimento global.

A Rota da Seda
A rota da seda formava a maior rede comercial do mundo antigo. Era uma série de corredores interligados através da Ásia do Sul, usados no comércio da seda entre o Oriente e o Ocidente. Os carregamentos eram transportados por caravanas de camelos e embarcações oceânicas que ligavam comercialmente o Extremo Oriente, a África e a Europa. 

Estas rotas foram significativas para o desenvolvimento e florescimento de grandes civilizações, como o Egito Antigo, a Mesopotâmia, a China, a Pérsia, a Índia e até Roma, e ajudaram a fundamentar o início do mundo moderno.  O declínio da rota da seda coincidiu com a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, no final do século XV.

O IV fórum sobre a iniciativa “One Belt One Road”   aconteceu, de forma elucidada, na província de Gansu – um dos corredores mais importantes da antiga Rota da Seda, que tinha início no Rio Amarelo e seguia na direção noroeste, atravessando a Província de Gansu em um percurso de 1.200 Km até a fronteira com a Província de Xinjiang.

O Governo chinês faz apelo a importância que a rota da seda teve na ligação entre os povos e no desenvolvimento comercial de muitas civilizações do mundo antigo para lançar a sua iniciativa económica “Um Cinturão e Uma Rota”, tida por Pequim como impulsionadora de uma nova era de globalização.

Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”  
A Iniciativa lançada em 2013 por Xi Jinping tem duas componentes: uma conhecida por The Silk Road Economic Belt (o Cinturão) e a outra chamada de The 21st-century Maritime Silk Road  (a Rota).
O Cinturão Económico da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima do Século XXI pretendem, pois, construir uma rede de comércio e infraestruturas conectando a Ásia com a Europa e a África pelas vias terrestre e marítima, ao longo da milenar rota da seda.  Há planos para a construção de oleodutos, portos, pontes e ferrovias em vários países. Destacam-se entre estas infraestruturas o corredor económico China-Paquistão, uma extensa rede de rodovias, usinas, fazendas de energia e fábricas, avaliado em cerca de 62 bilhões de dólares, que se acredita vir a provocar uma "revolução económica" e criar até um milhão de empregos no Paquistão. Outras infraestruturas de alto valor incluem um projeto portuário de 1,1 bilhão de dólar no Sri Lanka, uma ligação ferroviária de alta velocidade na Indonésia e um parque industrial no Camboja.

 Segundo o que a consultora internacional McKinsey disse ao jornal britânico The Guardian, o plano tem o potencial de ofuscar massivamente o plano de reconstrução Marshall pós-guerra dos EUA, envolvendo cerca de 65% da população mundial, um terço do PIB e ajudando a mover cerca de um quarto de todos os seus bens e serviços. Alguns descrevem o projecto de Xi Jinping como o maior impulso de desenvolvimento da história.

Para a China a iniciativa é um plano económico em que todos ganham. Por um lado, o projecto permite a China abrir e criar novos mercados de bens e tecnologia chineses e impulsionar as economias das regiões fronteiriças menos desenvolvidas, como a Xinjiang, ligando-as a países vizinhos. Por outro lado, pode permitir o desenvolvimento de países menos desenvolvidos e proporcionar assim um desenvolvimento global harmonioso. Portanto, uma nova globalização em que não são apenas as superpotências a ganhar, mas também os países menos desenvolvidos.

Para muitos, os ganhos não têm que ver apenas com vantagens económicas, mas também ganhos no estreitamento da relação entre os povos. Assim defendeu, por exemplo, Pavel Negoista, Diretor Geral da Gazeta rússia Rossiyskaya, que no IV fórum sobre a iniciativa disse que se trata de “uma nova perspectiva de desenvolvimento que prevê o entendimento entre povos e a cooperação cultural”. Já o nigeriano Olusegun Adeniyi, Presidente do Conselho Editorial da Thisday Newspaper, disse no mesmo fórum que “enquanto uns se preocupam em construir murros, os líderes chineses pretendem com a iniciativa derrubar barreiras entre os povos e construir a cooperação”. 

Mas, ao que parece, não há apenas entusiasmo a volta da iniciativa de Xi. Há também desconfianças.   O The Guardian  refere que muitos desconfiam que se trata de um plano geopolítico para a China tornar-se no país dominante na sua região. O jornal britânico ainda diz que outros temem que com a dívida com Pequim, se tornem "vassalos económicos" da China. Para o jornal, alguns países, como a Índia, suspeitam que o projeto é simplesmente uma cortina de fumo que a China usa para aproveitar o controlo estratégico do Oceano Índico.

De qualquer forma, o certo é que há muita expectativa a volta da iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”. E o fórum global dos media sobre a iniciativa, que se realiza anualmente, é uma estratégia de marketing para promover o conhecimento da iniciativa pelo mundo.

Cooperação Global entre os Media
A pretexto de uma cooperação entre os media, a China procura levar ao conhecimento do mundo a sua iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”. Para isso, realiza, anualmente há quatro anos, o fórum global dos media sobre a iniciativa. Uma forma inteligente de dar a conhecer o projecto, já que, como disse no IV fórum José Vera, Presidente da Agência espanhola EFE, “os media são hoje o equivalente a rota da seda, promovendo a ligação e o entendimento entre povos em larga escala”. 

No fórum da semana passada sublinhou-se o papel importante dos media não só na divulgação do plano chinês, mas sobretudo na fiscalização da implementação dos projectos da iniciativa.

A este propósito, falou-se da importância da cooperação entre os media como forma de disseminar as informações de forma mais rápida e mais acurada. Neste fórum falou-se, por exemplo, da importância dos media trocarem conhecimento sobre as boas práticas na utilização das redes sociais na transmissão da informação. Neste sentido, José Vera recomendou uma reflexão sobre a forma de informar no momento da “pós-verdade” em que muitos utilizam o sensacionalismo e os falsos testemunhos para fazer passar uma mentira como sendo verdade. O jornalista da EFE equiparou as falsas notícias à fast food  – agradam muito por serem gordurosas e açucaradas em escândalos mas, como as fast food que engordam e provocam doenças, prejudicam a sociedade e o entendimento.

O fórum global dos media sobre a iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” revela-se um excelente palco de troca de contactos e conhecimentos entre jornalistas e pensadores de todo o mundo. A sua realização é também crucial para a compreensão de um dos projetos económicos e políticos mais ambiciosos dos últimos tempos.

Porém, puxar o fio a este novelo pode não ser assim tão fácil. Para além das expectativas e controversas, espera-se que o projecto enfrente desafios enormes na sua concretização, se se tiver em conta os interesses de outros países nos canais onde passarão estas rotas e os intensos conflitos regionais. Mas China parece determinada a traçar os caminhos do futuro.


Humberto Santos -  Jornalista


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