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FORA DE JOGO. O sonho do Tarrafal FC que a covid-19 destruiu

  • Calu, treinado Tarrafal FC
  • Comunidade Tarrafal Monte Trigo
17 Mai 2020 Desporto

Nesta edição nº11 do FORA DE JOGO, estamos na comunidade de Tarrafal de Monte Trigo para compreender o sentimento de uma equipa que nunca estivera tão perto de fazer história. A covid-19 veio e matou o sonho que, em 90 minutos, poderia se tornar realidade.

É, em todo o país, a equipa que percorre a distância mais longa para disputar jogos de um campeonato regional de futebol. Estamos a falar do Tarrafal Futebol Clube que, para fazer um jogar em Porto Novo, percorre cada fim-de-semana mais de 100 quilómetros, entre ida e regresso a casa.

O clube carrega, no nome e nos ombros, as aspirações de uma comunidade inteira: Tarrafal de Monte Trigo. Zona piscatória e agrícola ao mesmo tempo, Tarrafal é um encanto. Tem uma extensa praia de areia negra a preencher toda uma baía, tem um vale verdejante onde se cultiva inhame, mandioca, cana-de-açúcar, bananeira, entre outras culturas. Pela sua beleza, e por tudo o que oferece, Tarrafal é muito procurado por turistas. Por isso, pode dizer-se, a localidade tem tudo. Mas, chegar lá cansa, porque ainda é de terra batida grande parte da longa estrada que liga a comunidade à cidade do Porto Novo, numa extensão de 52 quilómetros. 

É nessa comunidade que um grupo de jovens dá alma à uma equipa de futebol. Corajosamente, disputam o campeonato regional de futebol de Santo Antão Sul. Maugrado as dificuldades, Tarrafal tem feito, sucessivamente, boas prestações no campeonato, ou não sentenciasse o ditado que "a dificuldade é mãe da audácia”.

Porém, quando as dificuldades são tantas, a bravura, às vezes, esmorece por faltar forças, recursos financeiros, entende-se.  Afinal, já se sabe, verba tem muita força. Por isso, Tarrafal tem feito participações intermitentes no campeonato de Santo Antão Sul. Há épocas em que não dá, mesmo que seja à contragosto.

Na temporada 2018/19 o clube regressou às provas oficiais, depois de dois anos ausente. E foi um bom regresso, acabou no quarto lugar do campeonato.

A época da retoma foi um ensaio para a temporada seguinte. Neste 2019/20, Tarrafal estava a viver um sonho. A equipa entrara com tudo no campeonato, tendo feito 5 vitórias consecutivas. À quinta jornada, liderava, de forma isolada, a prova com um pleno de 15 pontos em 5 jogos. Até conseguiu um feito raro nos últimos tempos pelos lados de Porto Novo: derrotar a hegemónica Académica, algo que não acontecia para o campeonato regional havia quase 4 anos!

A locomotiva seguia em alta velocidade, até que dos fundos surgiu um leão e fez descarrilar o Tarrafal. Ironias do futebol, só o Sporting, então na última posição, conseguiu travar a equipa encarnada e azul, impondo-a uma derrota. Mas, o grupo reergueu-se e continuou a ganhar. Só que agora já não seguia sozinho no topo. Foi apanhado pela Académica que, aliás, passou a levar vantagem no goal average. E este cenário continuou até que ia chegar a última jornada.

O jogo mais esperado de sempre... e que não aconteceu

Última jornada do campeonato em Santo Antão Sul e um jogo de tudo ou nada: frente a frente Académica e Tarrafal no tira-teimas final, ambas as equipas com o mesmo número de pontos. Quem ganhasse sagrava-se campeão regional. O jogo assumia um atractivo especial já que estavam em mira dois feitos inéditos:

- Se Académica vencesse, ganharia o 10º campeonato regional consecutivo, algo nunca visto em Cabo Verde.
- Se fosse o Tarrafal a ganhar, conquistaria o campeonato pela primeira vez na sua história.

Com as duas equipas a dividir a liderança, ao Tarrafal FC bastaria apenas um empate, já que tinha ganho à “Corveta” na primeira volta. Tudo parecia um sonho a 90 minutos de se concretizar. Mas… chegou o tal de que se fala agora por todos os cantos do mundo, o novo coronavírus. E mandou parar tudo! Estava-se a três dias do tal jogo.

 “Foi uma notícia muito triste para nós”, começou por dizer-nos o treinador. Chama-se Carlos Rodrigues Medina, mas no futebol é simplesmente Calu.

Muito jovem ainda - tem apenas 33 anos - o “rapazinho” do Tarrafal ia dando nas vistas pelo campeonato que a sua equipa estava a fazer. Calu  completava a sua segunda temporada como treinador e estava a um ponto de chegar ao maior palco do futebol em Cabo Verde, o Campeonato Nacional de Futebol. Ele e toda a sua equipa. Ele e toda uma comunidade. Daí que a suspensão da prova tenha sido um imenso amargo de boca.

“Até agora ninguém consegue acreditar que vamos ficar sem disputar esse jogo decisivo”, desabafa.

Calu é de poucas palavras. Prefere esmerar-se mais nos actos. Vive do mar, é pescador. Ganha a vida na faina, mas o trabalho desgastante drriba d’aga de mar não o esmorece em terra, onde também é um lutador. Até há pouco tempo era jogador, mas ainda em idade de poder dar seu contributo em campo, teve de assumir as funções de treinador. Para isso ajudou o facto de ter feito uma formação “World Coaches Course” na Cidade da Praia.
“Esta equipa trabalha num mar de dificuldades. Como exige muitos sacrifícios, são poucas as pessoas que estão dispostas a ajudar. Tudo o que faço pelo clube é meramente por amor, não recebo um tostão”, diz-nos.

A paralisação do campeonato por causa da pandemia da covid-19 teve muitos efeitos no Tarrafal. Calu fala em sonho destruído.

“Ficamos numa situação complicada. Já tínhamos encomendado muitas camisolas para vendermos no último jogo do campeonato. Não pudemos fazer isso, temos todas as camisolas connosco, estamos cheio de dívidas”, desabafou, completando que acreditavam na retoma da prova. “Como Santo Antão não registava qualquer caso de covid-19, tínhamos esperanças que o campeonato iria ser retomado. Mas, pronto, a saúde está sempre em primeiro lugar”, expressou resignado.

Por decisão do Governo, em concertação com as federações, a época desportiva está terminada. Calu dá voz ao desencanto da equipa e de toda a comunidade de Tarrafal de Monte Trigo: “Estamos desanimados, é um sonho destruído”, rematou.

Benvindo Neves


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